segunda-feira, 10 de julho de 2017

Conheça o engenheiro que desde a década de 1980 produz tecnologia de ponta para a indústria de guerra brasileira

Quer um café?”, convida Wagner Campos do Amaral quando entro em sua sala. Com a caneca branca a tiracolo, me guia até a copa. Um bigode preto estampado na borda da caneca se sobrepõe ao seu, amarelado, a cada gole. Adereço divertido que o veste como um disfarce, ocultando a mente focada em projéteis de alta destruição. O engenheiro de 57 anos é fabricante de mísseis, armas mortíferas que nem precisam de comando: sua programação é tão refinada que eles perseguem sozinhos o alvo a exterminar.
Quando Wagner entrou para essa indústria, na década de 1980, o Brasil ainda não tinha conseguido fabricar nenhum armamento inteligente. Hoje, estamos entre as potências do mundo que dominam essa tecnologia – e a quantidade de mísseis do nosso arsenal é segredo de Estado. Divulgar um número como esse pode colocar em risco a segurança do País inteiro, nos deixando declaradamente vulneráveis frente a nações com maior poder de fogo. Nos limitamos a saber que a Odebrecht, que agora ataca no mercado de guerra, produz até cinco mísseis por mês. O know-how veio com a compra da Mectron, em 2011, empresa especializada em tecnologia aeroespacial. Foi fundada por Wagner e mais quatro sócios-engenheiros: Rogério Salvador, Azhaury Cunha, Carlos Alberto Carvalho, que assumiram cargos de direção na nova empresa, além de Ricardo Zanetta.
Falar de números é perigoso, mas se exibir com os avanços é negócio. Posiciona o Brasil como gerador de inovação e nos torna competitivos num mercado em que conhecimento, de fato, é poder. Apesar de não sermos um país de guerra, o mundo está de olho nos nossos armamentos. Exportamos para o Paquistão desde 2008. E não para por aí. “Temos outros países interessados, em negociação”, adianta André Paraná, diretor de comunicação da Odebrecht Defesa e Tecnologia.
Para a exposição de novas criações e ideias, no entanto, é preciso ser cauteloso. Notícias criam pressão e não conseguir entregar a tecnologia prometida dentro do prazo faz a credibilidade afundar. De quebra, o spoiler ainda ajuda o inimigo. “Se a gente dá bandeira antes da hora, corre o risco de ser copiado por alguém mais ágil e termina sendo passado para trás”, alerta. Já aconteceu, inclusive. Os Estados Unidos lançaram uma bomba com base numa tecnologia divulgada pela Mectron numa feira, e que a empresa não deu conta de desenvolver. Por isso, Wagner Amaral prefere assumir um “perfil baixo”, como ele mesmo define, e ser o mais discreto possível em relação aos projetos que desenvolve.

Matemática da destruição

Entre 2013 e 2014, 5 mil mísseis cortaram os céus paquistaneses determinados a destruir seus alvos, marcados em solo afegão. Uma chuva mortal que matou talibãs, além de homens, mulheres e crianças que calharam de estar no caminho. A tensão entre os dois países se intensificou quando foi declarada a Guerra do Afeganistão, em 2001, após o ataque às Torres Gêmeas. O Paquistão passou a ser um aliado dos Estados Unidos na luta que exigia a cabeça de Osama Bin Laden. No final de 2008, a Mectron passou a fornecer mísseis para as tropas paquistanesas. Foram vendidos cem mísseis antirradiação de uma vez, por mais de US$ 100 milhões. No ano seguinte, já se negociava a venda de mais uma fornada, dessa vez de mísseis MAA-1B, para combate entre aeronaves. Não faltam cláusulas que exigem sigilo.
O míssil antirradiação encomendado foi o MAR-1. A arma tem a função de destruir os radares inimigos, permitindo que as aeronaves de guerra entrem no território sem serem percebidas. São 90 quilos de explosivo, que liberam centenas de esferas de aço ao identificar seu alvo. A empresa também produz mísseis de quinta geração, como o A-Darter, desenvolvido em parceria com a África do Sul. Ele é capaz de realizar manobras extremas em sua corrida contra caças supersônicos, três vezes mais velozes que o som. Também sabem diferenciar aeronaves inimigas de iscas, que são como bolas de fogo lançadas para despistar os mísseis.
Mas um dos projetos que mais garante visibilidade ao Brasil, hoje, é o submarino nuclear, movido a um reator de urânio. A tecnologia permite que a embarcação não precise subir até a superfície para oxigenar o motor, momento em que fica vulnerável. O submarino está previsto para 2025 e, quando ficar pronto, vai incluir o Brasil na elite de potências navais que produziram submarinos desse tipo, junto com Estados Unidos, Rússia, Reino Unido, França, China e Índia.

Gosto pelo desafio

O interesse pela tecnologia e pelas armas já veio de criança. O pequeno Wagner, criado em Pouso Alegre, interior de Minas, queria era detonar. “Gastava todo dinheiro que ganhava com pólvora”. Comprava rojões, juntava latas de óleo, derretia chumbo e confeccionava asas em moldes esculpidos em tijolos. No final, tinha foguetes. “Eles nunca voavam muito longe. Eram pesados. Por sorte, nunca explodimos nada”, lembra.
Aos 14 anos, saiu de casa para seguir a carreira militar na Escola Preparatória de Cadetes do Exército, em Campinas. A faculdade também foi militar: no Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos, onde vive desde então. Cursou engenharia aeronáutica e se especializou em aerodinâmica. Aos 22, já era professor do instituto, e foi dando uma aula sobre mecanismos de controle de voo que se interessou por mísseis. Tentou explicar como funcionava um rolleron, uma peça de metal que, ao rodar como um catavento, dá estabilidade ao armamento. “Ninguém entendeu nada na aula, nem eu”, diz. Pronto, estava imposto o desafio – estímulo que o move em tudo na vida.
Ninguém te ensina a fazer um míssil. Ou você desenvolve a tecnologia, ou vai viver dependente de outros países.
Quando era pequeno, seu livro preferido era O Homem que Calculava, de Malba Tahan. Parava de ler para tentar decifrar sozinho as charadas e só depois continuava. Mas só pode competir assim, consigo mesmo, porque não sabe perder. “Parei de jogar baralho. Buraco, truco, dava muita confusão. Minha mulher me proibiu de jogar com as crianças, para não me deixar roubar delas”, admite. Com a esposa Gisela disputa até a data do aniversário de casamento. “Ela queria se casar no dia 5 de janeiro de 1985. Então, eu sugeri: ‘por que a gente não se casa antes no civil, dia 28 de dezembro? É até melhor, na cerimônia a gente se livra da papelada’”, conta. Se casaram duas vezes. O motivo da antecipação? Ele não queria perder o desconto do imposto de renda.

Engenharia de guerra

No caminho para o almoço, a fila para a feijoada estava do lado de fora do restaurante. Desistimos. Para ele, melhor assim. “Feijoada tem muita proteína. Fico com crise de gota e ela ataca bem no meu joanete”, conta Wagner, apontando para o dedo do pé. Também sofre de insônia. E de daltonismo, assim como sua mãe, seu pai, e uns cinco colegas de trabalho. Comprou um par de óculos antidaltonismo pela internet, de um site americano. Uma penca de homens correu para testar a novidade. Todos se frustraram. Nos semáforos, Wagner não diferencia vermelho e amarelo. Nada que o impeça de desfilar, em dias de passeio, com seu Maverick “laranja, abóbora, sei lá como vocês chamam aquela cor”. Para ser aceito no ITA, falsificou um atestado. Tirando que queimou uns equipamentos por não conseguir encaixar componentes coloridos nas entradas correspondentes, conseguiu se virar bem.
Não demorou muito para que o desafio do míssil se concretizasse em trabalho. Em 1983, Wagner passou a fazer parte de um projeto especial da DF Vasconcelos, empresa especializada em sistemas óticos complexos, como miras e sistemas de pontaria para aviões. Ele tinha 25 anos e a incumbência de fazer o primeiro míssil brasileiro, o MAA-1, batizado de Piranha. Mas o período era de crise na economia, marcada pela inflação exorbitante, e o projeto acabou passando pelas mãos de várias empresas. Quase todas que se envolveram com o projeto faliram.
Wagner e seus sócios trabalharam em praticamente todas elas. Com o setor bélico destruído pela crise, migraram para o Iraque em 1990, onde passaram um ano estudando mísseis de vários tipos e nacionalidades. Voltaram com a engenharia avançada e, mesmo num cenário econômico difícil, fundaram a Mectron. Wagner até pensou em montar uma fábrica de brinquedos, mas percebeu que, cedo ou tarde, o Brasil precisaria retomar os investimentos em defesa. Graças à iniciativa, o Piranha se tornou realidade, em 1996.
A ambição de conseguir desenvolver tecnologia desse nível também. “Ninguém te ensina a fazer um míssil. Ou você aprende sozinho, ou vai viver dependente de outros países”, aponta Wagner. E ele ainda quer mais. Sonha em produzir um míssil hipersônico, com velocidade cinco vezes maior que a do som. Fascinado pela engenharia, chega a se esquecer do poder destrutivo do que fabrica. Pergunto se algum míssil dele já havia sido disparado em um conflito brasileiro. “Só em testes e treinamentos. Em conflito não, infelizmente”, solta, talvez pensando que não sabe se o míssil funcionaria num momento decisivo. “Ou felizmente, né?”, corrige, lembrando que sabe o estrago que faria.

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