quarta-feira, 24 de julho de 2013

O sonho impossível de se empreender uma guerra fácil

É GENERAL DO EXÉRCITO DOS EUA, H. R. , MCMASTER, THE NEW YORK TIMES, É GENERAL DO EXÉRCITO DOS EUA, H. R. , MCMASTER, THE NEW YORK TIMES - O Estado de S.Paulo
"É possível investir uma boa dose de inteligência na ignorância quando a necessidade de ilusão é profunda", escreveu o romancista Saul Bellow. O governo americano precisa ter isso em mente ao analisar as lições das guerras no Iraque e no Afeganistão - lições de suprema importância para o momento em que o Exército do futuro é planejado.
O que os EUA aprenderam com as experiências anteriores foi muito pouco: uma das razões é que a história é usada de maneira simplista ou é totalmente ignorada, como resultado da ilusão de que o futuro parece mais fácil e fundamentalmente diferente do passado.
Essa ilusão foi alimentada nos anos anteriores aos atentados de 11 de setembro de 2011. Muitas pessoas acataram a ideia de que vitórias rápidas poderiam ser obtidas por um pequeno número de forças tecnologicamente sofisticadas, capazes de lançar ataques com precisão contra alvos inimigos a partir de distâncias seguras.
Essas teorias de Defesa, associadas à crença de que as novas tecnologias inauguravam uma era de combate totalmente nova, foram aplicadas nas guerras do Afeganistão e do Iraque. Em ambos os países, essas teorias eclipsaram a compreensão americana dos conflitos e retardaram o desenvolvimento de estratégias efetivas.
Hoje, as pressões orçamentárias e o desejo de evitar novos conflitos ressuscitaram os argumentos de que a tecnologia levou a uma nova era de operações militares. Alguns teóricos dedicados à Defesa descartam as dificuldades enfrentadas no Afeganistão e no Iraque, considerando-as aberrações. Mas não foram.
A melhor maneira de os EUA se protegerem contra novas ilusões é compreender premissas verdadeiras sobre a guerra, que já duram três eras, e como a experiência no Iraque e no Afeganistão confirmou a importância delas.
Em primeiro lugar, guerra é política. Como afirmou o filósofo prussiano do século 19 Carl von Clausewitz, "uma guerra jamais deve ser considerada alguma coisa autônoma, mas sempre como instrumento político".
Nos anos que antecederam as guerras no Afeganistão e no Iraque, o conceito de Defesa tinha como base operações militares que tinham, como fim, ser bem-sucedidas. Não era visto como um instrumento de poder a ser coordenado com outros para atingir e manter os objetivos políticos.
Os partidários da teoria conhecida como "Revolução nos Assuntos Militares" interpretaram erroneamente a vitória assimétrica da coalizão liderada pelos EUA na Guerra do Golfo, em 1991, e previram que novos avanços na tecnologia militar levariam ao predomínio sobre qualquer oponente. Segundo eles, adversários não ousariam ameaçar interesses vitais americanos.
Uma teoria arrogante que complicou os esforços dos EUA no Afeganistão e no Iraque, onde planos de guerra mal desenvolvidos se depararam com problemas políticos inesperados. No Afeganistão, forças delegadas ajudaram a derrubar o Taleban, mas muitas milícias debilitaram os esforços à medida que se concentraram em pessoas e agendas políticas limitadas. No Iraque, de 2003 a 2007, a estratégia da coalizão não solucionou ressentimentos políticos de minorias, especialmente árabes sunitas e turcomenos.
Nas guerras, grupos insurgentes e terroristas procuraram tirar vantagem desses ressentimentos, recrutando novos membros e conquistando o apoio de parte da população. Com o passar do tempo, a polarização sectária, tribal e étnica provocou mais violência, enfraqueceu os Estados, fortaleceu os insurgentes e aumentou o sofrimento da população civil. A lição: desconfie de conceitos que separam a guerra da sua natureza política, particularmente os que prometem uma vitória rápida e barata com o uso da tecnologia.
Em segundo lugar, a guerra é humana. As pessoas combatem hoje pelas mesmas razões identificadas pelo historiador grego Tucídides há quase 2.500 anos: medo, honra e interesse. Mas, nas duas últimas guerras, o conceito de Defesa subestimou o ser humano e também os aspectos políticos.
Embora os combates tenham derrubado o Taleban e Saddam Hussein, o desconhecimento da história dos povos iraquiano e afegão corroeu os esforços para consolidar os ganhos em batalha em segurança duradoura.
Com o tempo, as forças americanas aprenderam ser crucial levar em conta os temores, os interesses e o sentimento de honra dos cidadãos para romper o ciclo de violência e levar suas comunidades a uma acomodação política que isolasse os extremistas.
Foram adotadas medidas para reforçar a segurança no Iraque, depois de 2007, e no Afeganistão, após 2010, para aplacar os temores das minorias, preservar a honra de cada grupo e convencer as comunidades de que poderiam se proteger melhor e promover seus interesses por meio da política, e não da violência. A lição duramente aprendida: os conceitos de Defesa têm de considerar fatores históricos, econômicos e sociais que constituem a dimensão humana da guerra.
Em terceiro lugar, a guerra é cheia de incertezas, exatamente porque é política e humana. O pressuposto dominante é o de que a informação é a chave para a vitória. Conceitos de "operações de guerra em rede", "operações rápidas e decisivas", "choque e pavor" e "domínio de todo o espectro" sugerem que a inteligência quase perfeita levará a operações militares precisas e bem-sucedidas.
Mas, no Afeganistão e no Iraque, o planejamento não levou em conta as adaptações e as iniciativas do inimigo. As forças americanas, inicialmente mobilizadas em número insuficiente, enfrentaram dificuldades para manter a segurança. Lição: as guerras no Iraque e no Afeganistão, como todas as guerras, foram embates de vontades, o que tornou impossível prever os eventos futuros.
Felizmente, as forças americanas se adaptaram. Em 2005, na província iraquiana de Nínive, os inimigos colocaram comunidades sectárias em uma guerra civil sangrenta. Mas, na cidade de Tal Afar, o regimento de cavalaria americano tentou, primeiramente, compreender o ambiente complexo e criar um clima de confiança entre as forças de segurança iraquianas e a população acossada. Então, não só combateram o inimigo, mas também procuraram dar segurança aos civis e promover uma solução do conflito. O que foi aprendido: as forças precisam saber como enfrentar a dinâmica humana e política. Guerras não são travadas à distância.
A pressão orçamentária e o fascínio pela tecnologia levaram alguns a declarar o fim da guerra como a conhecemos. Embora as inovações que vêm surgindo sejam essenciais para operações militares eficazes, os conceitos nas quais estão baseadas, como ataques de precisão ou de surpresa, confundem as ações. Não devemos igualar capacidades militares com estratégia.
As guerras futuras apresentarão problemas diferentes e envolverão diferentes condições. Mas a guerra continuará a seguir as verdades que prevalecem há eras. Embora o orçamento de Defesa dos EUA esteja sob pressão, ter uma ideia clara da guerra não custa nada. É preciso, no mínimo, definir a questão da guerra no futuro e, com tal definição, inserir as vulnerabilidades com base em suas próprias ilusões. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO
SNB

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