quinta-feira, 11 de julho de 2013

Caso NSA evoca lembranças do nazismo e do comunismo nos alemães

DA DEUTSCHE WELLE
Denúncias de espionagem e controle estatal feitas por Edward Snowden reavivaram na memória de muitos alemães as tristes lembranças do nazismo e da Stasi. Apesar de não haver protestos, a indignação é perceptível.
Um governo quer coletar o maior número possível de informações sobre seus cidadãos, mas estes se recusam a colaborar e invocam seu direito à privacidade. A resistência é tão grande que pessoas de várias classes sociais saem às ruas para protestar. Marchas e manifestações se espalham pelo país.
Isso tudo aconteceu em 1983 na Alemanha. Na época, o governo queria fazer um censo detalhado da população. Todos os alemães maiores de idade deveriam preencher um questionário com informações básicas, como moradia, estado civil e ocupação profissional.
Diante da dimensão da coleta de dados revelada pelo ex-consultor da CIA Edward Snowden, a ira de 30 anos atrás parece até ridícula. Se o que ele disse é verdade, a Agência de Segurança Nacional (NSA, em inglês) consegue, por meio do controle de telefonemas e e-mails, saber muito mais sobre as pessoas do que qualquer questionário de um censo.
E, segundo as denúncias, a NSA não espiona apenas cidadãos dos Estados Unidos, mas também de vários outros países, incluindo a Alemanha e também o Brasil.
"DITADURA DO CONTROLE"
E como reagiram os alemães desta vez? Segundo uma recente pesquisa de opinião, quatro em cada cinco esperam uma posição firme da chanceler federal Angela Merkel, que deveria exigir explicações dos Estados Unidos em vez de deixar o caso cair no esquecimento. Mas protestos de rua não foram registrados.
"Os tempos mudaram", afirma o professor de política e história Ulrich Sittermann, da Universidade de Bremen, ele próprio um dos manifestantes que saiu às ruas na década de 1980. Sittermann lembra-se bem do contexto em que as manifestações surgiram.
"Elas eram um elemento dos novos movimentos sociais", comenta. "Havia o movimento contra a energia nuclear, o movimento em favor dos direitos das mulheres. E, nesse contexto de manifestações, surgiu também o movimento contra o censo", relembra.
Hoje apenas uma minoria protesta contra a espionagem online e o desrespeito à privacidade porque os alemães estão tão acostumados a usar e-mails e Facebook que poucos conseguem ver com clareza os riscos dessas mídias, opina Sittermann.
Ele considera essa situação perigosa. Sem resistência popular, a Alemanha pode se tornar uma "ditadura do controle", diz.
OUTRAS FORMAS DE PROTESTO
Mesmo não indo às ruas, os alemães têm encontrado outras maneiras de expressar sua indignação com as atividades de espionagem dos americanos, reveladas por Snowden. Em fóruns na internet, nas seções de cartas dos grandes jornais e no próprio Facebook é possível perceber a indignação causada pelas denúncias. E também a admiração de muitos alemães por Snowden.
A editora da seção de cartas do jornal alemão Die Zeit, Anna von Münchhausen, comenta que a maioria dos leitores respondeu "sim" a uma enquete com a pergunta "você ajudaria Edward Snowden a se esconder?".
"Algumas pessoas chegam a fazer comentários do tipo 'Snowden colocou a própria vida em perigo pela liberdade das pessoas, nós todos deveríamos protegê-lo'", conta Münchhausen.
Outros leitores comparam a situação atual com a da antiga Alemanha Oriental, quando a Stasi, o serviço secreto dos comunistas, era onipresente.
"Eu me lembro dos tempos obscuros da Alemanha Oriental, que afundou devido à própria incapacidade. Também eu fui sistematicamente espionado, e hoje isso se repete, só que de maneira muito mais profissional e perfeita", comentou um leitor.
UMA QUESTÃO DE LIBERDADE
Essa comparação e uma ainda mais antiga na história alemã --a lembrança do nazismo-- parecem mexer com muitos alemães, avalia Münchhausen. Talvez por isso eles estejam muito mais chocados com as revelações de espionagem do que a maioria dos americanos.
"Aqui na Alemanha essa situação toca num nível bem diferente de medo e preocupação, pois temos uma história com um Estado fascista, que espionava e controlava sistematicamente seus cidadãos, o que causou sofrimento em milhares de pessoas", diz Münchhausen.
Já os americanos têm outras experiências históricas. "Desde o 11 de Setembro, a luta contra o terrorismo foi posta acima de tudo, e para esse fim todos os meios são válidos", diz o especialista em mídias sociais Nico Lumma.
As reações que ele observou nas redes sociais alemãs nas últimas semanas não são tão tolerantes quanto as dos americanos.
"As pessoas estão irritadas com o alcance dessa espionagem. Acho que a maioria já tinha suspeitado que isso acontecia, mas agora esperam que o governo alemão deixe claro para os EUA que a coisa não pode continuar desse jeito", opina Lumma.
Segundo ele, o tom geral entre os alemães é que não se trata de uma questão de proteção de dados, mas de liberdade.
FOLHA DE S PAULO
SNB

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