sexta-feira, 21 de junho de 2013

O Brasil diante da turbulência

O Estado de S.Paulo
O dólar disparou em todo o mundo, nos últimos dois dias, numa reação talvez desproporcional à fala de Ben Bernanke, presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano). No Brasil, a moeda americana chegou a R$ 2,26, ontem, recuou ligeiramente depois de forte intervenção da autoridade monetária e voltou a subir. No meio da tarde, o dólar havia subido o,42% em relação ao euro, 1,62% diante do iene e 2,30% nas trocas com o real. Bernanke, no entanto, havia tentado transmitir um recado tranquilizador, negando a hipótese de qualquer mudança brusca na política de estímulos à economia dos Estados Unidos.
Os juros básicos devem continuar entre zero e 0,25% enquanto o desemprego permanecer acima de 6,5% e a inflação estiver no máximo em 2,5% (atualmente a alta de preços é inferior à meta de longo prazo, de 2%). Além disso, a irrigação do mercado com a compra de títulos no valor de US$ 85 bilhões mensais só será reduzida gradualmente. A diminuição poderá começar até o fim do ano, se as condições da economia continuarem melhorando.
Se tudo correr muito bem, o programa talvez seja encerrado no meio de 2014. Nenhum indicador funcionará como gatilho e a mudança será gradual, insistiu o presidente do Fed. Não se pretende pisar no freio, mas desacelerar com cuidado, esclareceu. Todo esse cuidado foi inútil, pelo menos no resto da quarta-feira e ao longo da quinta. Os operadores do mercado financeiro reagiram como se Bernanke houvesse anunciado a rápida eliminação dos estímulos monetários e em breve o dólar devesse tornar-se escasso.
Não há como estimar com alguma segurança, neste momento, os novos pontos de equilíbrio entre o real e as principais moedas, nem quanto tempo será necessário para uma acomodação dos mercados. No Brasil, há quem projete a estabilização em R$ 2,30 ou mesmo R$ 2,40 por dólar, mas é difícil saber quanto há de cálculo e quanto de torcida nessa profecia. Conversa sobre tendência do câmbio nem sempre é apenas um exercício técnico. No fim da semana passada, a mediana das projeções coletadas no mercado pelo Banco Central (BC) estava em R$ 2,10 para o fim de 2013. Para dezembro de 2014 a previsão era de R$ 2,15. Não houve grande mudança nos fundamentos da economia nacional, nos últimos dias, nem na orientação anunciada pelos dirigentes do Fed.
A enorme agitação nos mercados cambiais deve ser explicável por uma combinação de fatores - insegurança, efeito manada, valorização excessiva de uma só parte da mensagem do Fed e, é claro, muita especulação. Mas é inútil, diante de um quadro como esse, esperar de um dia para outro um retorno à moderação e à racionalidade.
Tampouco adianta lamentar a injustiça dos fados. Governos precisam estar preparados para enfrentar solavancos e para impedir maiores estragos na economia. Mas também precisam, antes de tudo, agir com suficiente prudência, no dia a dia, para manter o País pouco vulnerável a turbulências financeiras.
O Brasil tem muita munição para responder aos desafios do mercado, neste momento, segundo o ministro da Fazenda, Guido Mantega. De fato, as reservas cambiais, na vizinhança de US$ 370 bilhões, devem ser mais que suficientes para intervenções durante algum tempo.
Só nessa quinta-feira, no entanto, o BC jogou no mercado cerca de US$ 3 bilhões. Isso foi necessário porque o Brasil está especialmente vulnerável à agitação nos mercados. Diante do real o dólar subiu mais do que em relação a outras moedas, tanto de países desenvolvidos quanto de emergentes. A segunda maior variação da moeda americana foi em relação à lira turca (1,85%). Mas a intervenção turca no mercado ficou em cerca de US$ 150 milhões.
Inflação elevada, baixo crescimento econômico, piora da situação fiscal e contas externas em deterioração já motivaram a imposição de um viés de baixa às perspectivas do País pela Standard & Poor's. A Moody's acaba de anunciar uma reavaliação, possivelmente negativa, do quadro brasileiro. Não dá para o governo, mais uma vez, culpar os estrangeiros pelas vicissitudes nacionais.
SNB

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