segunda-feira, 10 de junho de 2013

EUA coletam mais dados sobre comunicação do que Rússia, diz ex-técnico da CIA

Considerado o responsável por vazar o monitoramento de dados de telefone e internet feitos ilegalmente pelos serviços de inteligência dos Estados Unidos, Edward Snowden foi entrevistado em Hong Kong por Glenn Greenwald e Ewen MacAskill, do "Guardian" --o ex-técnico da CIA assumiu a culpa pelo vazamento de informações em entrevista publicada pelo jornal britânico. Ele está há dez dias em Hong Kong, onde diz que pretende buscar asilo em um outro país.
Leia, abaixo, os principais trechos.
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"The Guardian" - Por que você decidiu se tornar um delator?
Edward Snowden - A Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos (NSA, sigla em inglês) construiu uma infraestrutura que permite interceptar quase tudo. Com esta capacidade, a grande maioria da comunicação humana é automaticamente ingerida sem uma mira. Mas, se eu quiser ver os seus e-mails ou o celular da sua mulher, tudo o que preciso fazer é usar interceptores. Posso obter os seus e-mails, senhas, registros telefônicos e cartões de crédito. Eu não quero viver em uma sociedade que faz este tipo de coisas... Eu não quero viver em um mundo onde tudo o que eu faça e fale seja registrado. Isto não é uma coisa que estou disposto a apoiar ou viver sob.
Mas não há a necessidade desta vigilância para tentar reduzir as chances de ataques terroristas como os de Boston, por exemplo?
Nós temos que decidir o porquê de o terrorismo ser uma nova ameaça. O que aconteceu em Boston foi um ato criminoso. Não foi uma questão de vigilância, mas a polícia à moda antiga funcionou. A polícia é muito boa no que faz.
Você se vê como um outro Bradley Manning?
Manning foi um delator clássico. Ele foi inspirado no bem púiblico
Você acha que o que fez seja um crime?
Nós vimos criminalidade o bastante por parte do governo. É hipócrita fazer esta alegação contra mim. Eles têm limitado a esfera pública de influência.
O que você acha que vai acontecer com você?
Nada de bom.
Por que Hong Kong?
Acho que é realmente trágico que um americano precise ir para um lugar que tenha uma reputação de menos liberdade. Ainda assim, Hong Kong tem uma reputação de liberdade, apesar da China. Hong Kong tem uma forte tradição de liberdade de expressão.
O que os documentos vazados revelam?
Que rotineiramente a NSA mente em respostas a parlamentares sobre questões a respeito da vigilância americana. Acredito que quando [o senador Ron] Wyden e [o senador Mark] Udall perguntaram sobre o assunto, eles [a NSA] disseram que não tinham as ferramentas necessárias para fornecer uma resposta. Nós temos as ferramentas e eu tenho mapas que mostram onde as pessoas têm sido mais escrutinadas. Nós coletamos mais comunicações digitais dos americanos do que dos russos.
O que você pensa dos protestos do governo Obama sobre a ciberespionagem chinesa?
Nós hackeamos todo mundo em qualquer lugar. Gostamos de fazer distinção entre nós e os outros. Mas nós estamos em quase todos os países do mundo. E não estamos em guerra com eles.
É possível colocar segurança no lugar de proteção contra a vigilância estatal?
Vocês sequer estão cientes do que é possível. A extensão da capacidade da NSA é horripilante. Nós podemos plantar erros nas máquinas. Uma vez que você está na rede, posso identificar sua máquina. Você nunca estará seguro, mesmo que coloque qualquer proteção.
Sua família sabe o que você está planejando?
Não. Minha família não sabe o que está acontecendo... Meu principal medo é deles [das autoridades] irem atrás da minha família, dos meus amigos, da minha parceira. Qualquer pessoa com quem eu tenha um relacionamento. Vou precisar viver com isso para o resto da minha vida. Não vou ser capaz de me comunicar com eles. Eles vão agir agressivamente contra qualquer pessoa que me conheça. Essa preocupação me mantém acordado à noite.
Quando você decidiu vazar os documentos?
Você vê coisas que podem ser perturbadoras. Mas quando você vê tudo, percebe que algumas dessas coisas são abusivas. Então, a consciência de injustiça se acumula. Não teve uma manhã em que eu acordei [e decidi fazer isso]. Foi um processo natural. Em 2008, muita gente votou no Obama. Eu não votei nele, votei em um terceiro. Mesmo assim, acreditava nas promessas do Obama. Eu estava indo revelar as informações [mas esperei por causa de sua eleição]. Mas ele continuou com as políticas de seu antecessor.
Qual foi sua reação quando Obama denunciou o vazamento, ao mesmo tempo em que ele se dizia disponível para um debate equilibrado entre segurança e abertura?
Minha reação imediata foi pensar que ele estava tendo dificuldade em se defender. Ele estava tentando defender o injustificável e sabia disso.
Você tem algum plano?
A única coisa que posso fazer é sentar aqui e esperar que o governo de Hong Kong não me deporte... Minha inclinação natural é procurar asilo em um país com valores compartilhados. A nação que mais abrange isso é a Islândia. Eles brigaram para que as pessoas tivessem mais liberdade na internet. Não tenho ideia de como será o meu futuro. Eles poderiam colocar uma nota na Interpol. Mas eu não acredito que cometi um crime fora dos domínios dos Estados Unidos. Acho que vai ser claramente demonstrado que foi algo de natureza política.
Você acha que provavelmente vai acabar na prisão?
Eu não poderia fazer isso sem aceitar o risco da prisão. Você não pode ir contra a agência de inteligência mais poderosa do mundo e não aceitar o risco. Se eles querem te pegar, em algum momento eles vão.
Como você se sente agora, quase uma semana depois do primeiro vazamento?
Acho que o sentimento de indignação manifestado foi justificado. Ele me deu a esperança de que não importa o que aconteça comigo, o resultado será positivo para a América. Não espero ver minha casa novamente, embora isso seja a minha vontade.
FOLHA ..SNB

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