segunda-feira, 13 de maio de 2013

O contrabandista número 1


JOSHUA E., KEATING, FOREIGN POLICY - O Estado de S.Paulo
Um dos episódios mais infames da sangrenta revolta ocorrida após a disputada eleição no Zimbábue de 2008 foi o do chamado "navio da vergonha" - um cargueiro chinês descoberto transportando armas de pequeno porte, granadas lançadas por foguetes e morteiros para o assediado regime de Robert Mugabe. Os países vizinhos não permitiram que o navio ancorasse em seus portos, mas o incidente apenas reforçou a percepção de que a China havia se tornado negociante de armas para os mais brutais bandidos da África, fossem tiranos como Mugabe ou o ditador genocida do Sudão.
Mas essa imagem não está inteiramente justa: sobre venda de armas para regimes suspeitos, os Estados Unidos ainda ocupam decididamente o primeiro lugar.
Numa recente pesquisa para o International Studies Quaterly, os cientistas políticos Paul Midford e Indra de Soysa analisaram as remessas de armamento chinês e dos Estados Unidos para a África de 1989 a 2006, utilizando dados coletados pelo Stockholm International Peace Research Institute. E concluíram que não havia nenhuma correlação estatística entre a China e os regimes que ela supria com armas, enquanto os carregamentos de armas dos Estados Unidos estavam levemente correlacionados - e de maneira negativa - com a democracia. Em linguagem clara, a China tinha menos probabilidade de vender armas para ditadores do que os americanos.
"Não significa que a China está ali para fazer o bem. Os chineses estão defendendo seu interesse nacional", afirmou Midford. "Mas não encontramos nenhuma evidência de que eles estão tentando difundir um 'consenso de Pequim' ou promover regimes que são especificamente autocráticos".
O estudo se concentrou na África, mas preocupações no campo dos direitos humanos também foram levantadas com relação às armas enviadas pelos Estados Unidos para autocracias do Golfo Pérsico, como Arábia Saudita, Bahrein e Emirados Árabes Unidos, que, coletivamente, contribuíram para o salto de mais de 300% nas vendas de armas americanas em 2011, em meio às crescentes tensões com o Irã.
Midford sublinhou que o objetivo do estudo não foi sugerir que os Estados Unidos preferem vender armas para ditadores. "Os Estados Unidos decidiram apoiar autocratas por razões geopolíticas, assim como a China", afirmou. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO
SNB

Arquivo do blog segurança nacional