domingo, 28 de abril de 2013

Conflito no Mali entra na fase de guerrilha


LOURIVAL SANTANNA - O Estado de S.Paulo
Os bombardeios franceses arrancaram os insurgentes islâmicos das cidades do norte do Mali, mas o conflito, em vez de acabar, entrou em nova fase, ainda mais perturbadora para a população rural e nômade: a guerra de guerrilha. Num dado revelador da instabilidade e da sensação de insegurança, 270 mil malineses estão desalojados dentro do Mali e outros 170 mil, refugiados nos países vizinhos - quase 3% da população de 16 milhões de habitantes.
O maior grupo de refugiados - 77 mil - está no campo de Mbera, na Mauritânia, perto da fronteira com o Mali. O Médicos Sem Fronteiras (MSF) entrevistou em março 100 desses refugiados e constatou que dois terços deles (65%) são tuaregues, a minoria que liderou o movimento separatista do norte.
Inicialmente de inspiração laica, esse movimento foi depois dominado pelos grupos islâmicos, que mudaram suas prioridades, da independência ou autonomia da região para a conversão de todo o Mali em uma teocracia. Foi essa mudança na agenda e o avanço dos combatentes rumo ao sul, onde está a capital, Bamako, que desencadearam, em janeiro, a intervenção francesa.
O segundo maior grupo étnico entre os refugiados são os árabes (26%), minoria diretamente associada ao fundamentalismo sunita que passou a dominar o movimento a partir de meados do ano passado, expulsando os separatistas laicos do Mali. Quase metade dos entrevistados (45%) disseram ter fugido por medo de represálias do Exército do Mali - que de fato chegou a promover chacinas de tuaregues - e da população local, que, com o avanço dos separatistas e dos extremistas, tornou-se hostil a essas minorias.
Já um quarto dos refugiados (24%) escapou de confrontos que ameaçavam diretamente suas vidas. Um quinto (20%) deixou o Mali depois do início dos bombardeios franceses, que também representaram uma ameaça para a população. A tomada de cidades pelos grupos islâmicos motivou a fuga de apenas 3% dos malineses ouvidos no campo de Mbera.
O Estado perguntou a Henry Gray, coordenador de emergência do MSF, que esteve no remoto campo, no meio do deserto, se há combatentes dentre os refugiados. "Não fazemos distinção entre civis e combatentes, mas não encontramos armas entre os feridos que tratamos", respondeu Gray. A segurança no campo é mantida pela polícia da Mauritânia.
O MSF, que mantém cinco médicos, sete enfermeiras e uma parteira no campo, realizou 85 mil consultas e 200 partos, e atendeu mil crianças com desnutrição grave. Entre as causas de morte, 27% foram por diarreia, 24% por febre e malária e 16% por infecções respiratórias. Essas infecções foram mais abundantes no inverno, mas, com o verão que se aproxima no Hemisfério Norte, o calor de 50 graus representa novo desafio para a sobrevivência no campo, que não dispõe de eletricidade, embora não falte água, graças aos poços artesianos.
O MSF ergueu três hospitais de campanha - dois no campo de Mbera e um no posto de fronteira de Fassala -, que funcionam com geradores. O grupo tem um centro cirúrgico em Bassikounou, cidade mais próxima do campo, que fica a 300 km, mas não há exatamente uma estrada, e sim trilhas de areia no deserto. A viagem leva de 7 a 8 horas em veículos 4 x 4 e de 3 a 4 dias em caminhões, que trazem os mantimentos descarregados de aviões em Bassikounou, onde está a pista de pouso mais próxima do campo.
Os refugiados não se sentem encorajados a voltar com as notícias de confrontos que ouvem de pessoas que vão e vêm - incluindo homens da família, que cuidam dos rebanhos no Mali.
Há duas semanas, o Chade - cujas tropas eram as mais capacitadas para atuar no deserto do norte do Mali - anunciou a retirada de seus 2 mil homens da força de da paz formada pela França e pelos países da região. Restaram 4 mil soldados franceses e outros 4 mil africanos. A França pretende retirar também a maior parte de seus homens até o fim do ano, deixando mil soldados.
Foram soldados chadianos que mataram Abdelhamid Abou Zeid, líder da Al-Qaeda na região, e Mokhtar Belmokhtar, que comandou o sequestro em massa de funcionários em um complexo de gás na Argélia, perto da fronteira com o Mali. Os confrontos deixaram ao menos 13 chadianos mortos.
As tropas francesas e africanas deverão ser substituídas por capacetes azuis. O Conselho de Segurança da ONU aprovou na quinta-feira, por unanimidade, a criação de uma força de paz para o Mali. Com 12,6 mil soldados, será a terceira maior força de paz no mundo, depois da do Congo e de Darfur, no Sudão. Se serão capazes de oferecer segurança para os desalojados e refugiados voltarem para casa, ainda é incerto.
SNB

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