quinta-feira, 21 de março de 2013

Gerente do VLS-1 é entrevistado pelo Blog Brazilian Space


O Gerente do VLS-1, T Cel Eng Alberto Walter da Silva Melo Júnior foi entrevistado pelo Blog Brazilian Space. O blog (http://brazilianspace.blogspot.com.br/) foi criado pelo jornalista Duda Falcão para a divulgação do Programa Espacial Brasileiro, da Astronomia, Astrofísica, Astrobiologia e Cosmologia Brasileira. Veja a entrevista.

BRAZILIAN SPACE: T. C. E. Alberto Mello, para aqueles que não o conhece nos fale um pouco sobre o senhor, onde nasceu, sua idade e qual sua formação?
TEN. CEL. ENG. ALBERTO MELLO: Meu nome é Alberto Walter da Silva Mello Junior, sou natural de Jacarezinho, PR, tenho 48 anos, sou formado em engenharia aeronáutica pelo ITA, Mestre em Ciência pelo ITA, MBA pela Universidade Federal Fluminense e Ph.D. pelo Departamento de Engenharia Aeroespacial da Universidade do Texas em Austin. Sou o atual gerente do Projeto VLS-1 e Chefe da Coordenadoria de Projetos Espaciais do IAE.
BRAZILIAN SPACE: T. C. E. Alberto, é sabido que antes do lançamento do VLS-1 VSISNAV haverá uma operação intitulada “Operação Santa Bárbara”. O senhor poderia esclarecer para o nossos leitores quais são os reias objetivos do IAE com essa operação?
T. C. E. ALBERTO MELLO: Os objetivos principais da Operação Santa Barbara são: Integração do veículo completo na plataforma; testes funcionais das redes de telemetria, controle, serviço, terminação de voo e pirotécnica, visando qualificação para voo; testes de compatibilidade eletromagnética e interferência eletromagnética (EMI/EMC) dos sistemas do veículo; testes das interfaces com os meios de solo do sistema VLS, tais como aquisição de telemetria, banco de controle, terminação de voo, linha de fogo, Torre Móvel de Integração - TMI, mesa de lançamento, torre de umbilicais e comunicação.
BRAZILIAN SPACE: T. C. E. Alberto, já se tem uma data prevista para a realização da operação em questão?
T. C. E. ALBERTO MELLO: Esta Operação está prevista para ocorrer no segundo semestre de 2013.
BRAZILIAN SPACE: E quanto ao lançamento do VLS-1 VSISNAV T. C. E. Alberto, o mesmo ainda será realizado em 2013, e caso não, qual seria a data mais provável para o seu lançamento?
T. C. E. ALBERTO MELLO: O cronograma físico atual do VLS-1 prevê o lançamento do VSISNAV para o primeiro semestre de 2014.
BRAZILIAN SPACE: T. C. E. Alberto, com o vôo bem sucedido do VLS-1 VSISNAV o sistema de navegação (SISNAV) e a parte baixa do veículo (primeiro e segundo estágios) estarão definitivamente qualificados?
T. C. E. ALBERTO MELLO: Entre os objetivos do VSISNAV estão as qualificações do SISNAV em veículos lançadores, do sistema de separação entre primeiro e segundo estágios e da estabilidade da queima dos motores S-43 sob aceleração. Esta é uma importante etapa para a certificação de tipo do veículo completo.
BRAZILIAN SPACE: E no caso do voo do VLS-1 VSISNAV não ser bem sucedido T. C. E. Alberto, qual seria então o caminho a ser seguido pelo IAE?
T. C. E. ALBERTO MELLO: Estamos trabalhando e conduzindo o projeto de forma minuciosa, visando ao cumprimento completo dessa etapa. No entanto, sucesso ou insucesso de uma missão deve ser medido pela quantidade de objetivos efetivamente alcançados e o aprendizado associado ao projeto, que permitirá a continuidade do Programa Espacial Brasileiro, com o VLS-1 ou outro lançador.
Além dos testes descritos acima, a missão do VSISNAV objetiva qualificar em voo as novas redes elétricas em malha aberta; sistemas de amortecimentos das redes pirotécnicas; sistema de terminação de missão; aquisição de dados de telemetria, com a nova infraestrutura para operações de lançamento (TMI, Casamata, Banco de Controle, Prédios de Preparação), e teste real das Estações Operacionais do Centro de Lançamento de Alcântara - CLA, Centro de Lançamento da Barreira do Inferno - CLBI e Estação Móvel de Telemetria. Cada um desses resultados deverá ser analisado para decisão do próximo passo após o voo do VSISNAV.
BRAZILIAN SPACE: T. C. E. Alberto, com a qualificação do SISNAV o mesmo poderá ser utilizado por outros veículos lançadores de satélites brasileiros como os futuros VLM-1 e VLS-Alfa?
T. C. E. ALBERTO MELLO: a parte baixa do VLS-1 é a mesma concebida para o VLS-Alfa. Sua qualificação indica que ela estaria pronta para ser empregada em novas gerações de lançadores, dentro da conveniência de cada projeto. O primeiro estágio do VLM-1 possui motor único, o S50, ainda em fase de desenvolvimento. No entanto, o VLM-1 utiliza os mesmos meios desenvolvidos no Projeto VLS-1 e todo o cabedal deste e outros projetos espaciais do IAE. Muitas soluções desenvolvidas para o VLS-1, testadas e aprovadas, serão utilizadas no VLM-1; incluindo-se a TMI e os meios do CLA.
BRAZILIAN SPACE: T. C. E. Alberto, é sabido que o próximo voo tecnológico previsto do VLS-1 é o XVT-02. O senhor poderia nos falar sobre os objetivos dessa missão.
T. C. E. ALBERTO MELLO: O objetivo principal do XVT-02 é executar um voo tecnológico do veículo completo, com todas suas funcionalidades e com todos os estágios ativos. Serão qualificados: a nova arquitetura da rede elétrica em malha fechada, com computador de bordo nacional; sistema de separação e queima dos motores do terceiro e quarto estágios; a atuação do sistema de rolamento e estabilização e inserção em órbita de uma carga tecnológica. O SISNAV, sistema inercial autônomo desenvolvido no IAE, será a plataforma de navegação do veículo.
BRAZILIAN SPACE: T. C. E Alberto, não havendo o velho problema da falta de recursos financeiros adequados e de êxito no lançamento do VLS-1 VSISNAV, em quanto tempo após esse lançamento o IAE estaria pronto para o lançamento do VLS-1 XVT-02?
T. C. E. ALBERTO MELLO: Primeiramente, cabe ressaltar que os recursos solicitados para a conclusão do Projeto VLS-1 estão em conformidade com os valores descritos na Estratégia Nacional de Ciência e Tecnologia e no Programa Nacional de Atividades Espaciais (PNAE). No entanto, por restrições orçamentárias, os valores que efetivamente chegam ao projeto acabam sendo bem menores do que os divulgados nesses documentos. Cortes no orçamento do projeto geram atrasos e perdas irreversíveis. Alongamento dos prazos causa desmobilização, obsolescência de sistemas, perda de oportunidade e aumento de custos. Estamos atravessando um ponto de inflexão no projeto, cuja consequência, caso não haja complementação imediata de recursos, será a necessidade de realinhamento do Programa Espacial Brasileiro. As autoridades de nossa cadeia de comando estão sensíveis a essa situação. O DCTA e AEB têm se esforçado na busca de meios para a complementação de recursos necessários à conclusão desta fase de consolidação da conquista do espaço.
Voltando à pergunta, os recursos atualmente previstos para o Projeto são suficientes para a conclusão do MIR e VSISNAV. No momento, considerando-se o Plano Plurianual - PPA, não há previsão orçamentária para o desenvolvimento do XVT-02 e V04. Se os recursos financeiros fossem complementados ainda no primeiro semestre de 2013, conforme dotação prevista no PNAE, e o cronograma de desembolso fosse cumprido de forma oportuna, o XVT-02 seria lançado até o final de 2015.
BRAZILIAN SPACE: T. C. E Alberto, é sabido que após o lançamento do XVT-02 o próximo passo será o quarto voo de qualificação do VLS-1, ou seja, a missão do VLS-1 V04. O senhor poderia nos falar sobre os objetivos dessa missão.
T. C. E. ALBERTO MELLO: O V04 será o protótipo do VLS-1 com finalidade de satelitização. Todos os sistemas serão baseados na configuração final derivada do XVT-02. O objetivo macro do V04 é o de cumprir voo completo, sendo capaz de entregar, a partir de Alcântara, em órbita circular equatorial com baixa excentricidade, um satélite de 200 kg a 750 km, ou uma variação dessa especificação. É importante ressaltar que outros projetos estão sujeitos às mesmas restrições orçamentárias impostas ao VLS-1. Portanto, o voo do V04 é o mais próximo que estamos de um ciclo completo relativo ao desenvolvimento de veículos lançadores nacionais. As etapas estão bem definidas. Ainda que muito já tenha sido realizado e da consolidação de uma importante etapa que virá com o voo do VSISNAV, somente com a conclusão do Projeto VLS-1, culminando com o lançamento do V04, é que teremos cumprido integralmente os objetivos do PNAE e das Estratégias Nacionais de Defesa e CT&I.
BRAZILIAN SPACE: Existe a intenção de se lançar um satélite nessa missão do VLS-1 V04 T. C. E. Alberto?
T. C. E. ALBERTO MELLO: A carga útil dependerá da disponibilidade e oportunidade na época do lançamento. Uma das opções poderá ser o Itasat-1, atualmente sendo desenvolvido pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica, ITA. Isso dependerá do estágio de desenvolvimento deste satélite e do VLM-1.
BRAZILIAN SPACE: Para finalizar T. C. E. Alberto, com a realização bem sucedida das três próximas missões do VLS-1 entende-se que o veículo estará finalmente qualificado. Assim sendo, lhe pergunto: Com a qualificação desse veículo o mesmo seguirá sendo produzido ou o projeto será abandonado?
T. C. E. ALBERTO MELLO: A continuidade do VLS-1, com a fabricação em série, dependerá da conveniência e necessidade do nosso Programa Espacial. No entanto, acreditamos que o resultado mais importante com o sucesso do V04 será a capacidade adquirida pelo Brasil, com autonomia e desenvolvimento próprio, de projetar, fabricar, lançar, controlar, estabilizar e entregar uma carga útil em órbita terrestre. Este feito mudará o status do país perante a comunidade internacional. Isso abrirá novas portas e deixará claro do que somos capazes. Somente o desenvolvimento de lançadores nacionais elevará o Brasil no ranking de maturidade tecnológica na área espacial. Todas as fases por que passamos no Projeto VLS-1 são necessárias para o desenvolvimento do V04 e de outros lançadores. Precisamos conhecer todas as variáveis e desenvolver soluções próprias, se quisermos ter autonomia em veículos espaciais. As etapas não podem ser puladas. Problemas devem ser identificados, estudados e solucionados. É o Projeto VLS-1 que nos habilita hoje a planejar VLS-Alfa, VLM-1 e outros futuros lançadores.
Outro aspecto do Projeto VLS-1, que é um braço importante do nosso programa espacial, está relacionado com as conquistas tecnológicas já consolidadas para o Brasil, seja como aplicação direta ou spin off. Graças ao Projeto VLS-1, hoje, nós somos capazes de produzir envelopes motores e outros itens em aço de alta resistência (exportamos componentes); fabricar e processar combustíveis sólidos; projetar e desenvolver computadores de bordo e redes de comando e controle para veículos espaciais; desenvolver materiais compostos e tecnologia de bobinagem de fios e fitas sintéticas; e produzir estruturas de materiais compósitos resistentes a altas temperaturas. Além disso, desenvolvemos um sistema inercial autônomo para voos orbitais; possuímos um Centro de Lançamento invejável por sua localização e funcionalidade; temos o domínio da tecnologia e exportamos foguetes de sondagem; desenvolvemos a capacidade de realizar operações espaciais complexas. Tudo isso, fomentando a indústria nacional, desenvolvendo o BRASIL.
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