quarta-feira, 15 de maio de 2013

Marinha russa aumenta controle do Mediterrâneo

Nikita Sorokin

A esquadra do Mediterrâneo da Marinha de Guerra russa irá incluir submarinos e porta-aviões. Na prática, se trata do ressurgimento da 5ª Esquadra do Mediterrâneo.

Em janeiro deste ano, no Mar Negro e no Mediterrâneo tiveram lugar grandes manobras aeronavais da Marinha de Guerra Russa com a participação da aviação estratégica. Algum tempo depois, o ministro da Defesa Serguei Shoigu se pronunciou a favor da formação de um comando operacional independente da Marinha de Guerra para o Mediterrâneo com caráter permanente. Em fevereiro foi divulgado que o Estado-Maior General russo estava a estudar o estacionamento no Mediterrâneo até 2015 de uma formação operacional permanente da Marinha de Guerra.
Há dias, o comandante da Marinha russa, almirante Viktor Chirkov, anunciou que a força prevista para a Esquadra do Mediterrâneo iria consistir em cinco ou seis navios. O almirante não especificou se esse número incluía apenas os navios de guerra ou se também abrangia os navios de apoio como petroleiros e navios-oficina. Está garantido que a esquadra irá incluir submarinos e não se descarta a possibilidade de vir a englobar porta-helicópteros da classeMistral,comprados pela Rússia em França.
De acordo com Chirkov, a esquadra do Mediterrâneo será formada com base na rotação dos navios de combate e auxiliares das frotas do Mar Negro, do Norte, do Báltico e do Pacífico da Marinha russa. Neste momento já arrancou o programa de formação dos oficiais de estado-maior que irão ocupar permanentemente as funções de comando operacional da Esquadra do Mediterrâneo.
A presença permanente no Mediterrâneo de uma força naval russa é uma decisão plenamente justificada por vários motivos, referiu à Voz da Rússia o editor principal da revista Export Vooruzheny (Exportação de Armamento) Andrei Frolov:
“O primeiro é a Rússia continuar a ter interesses na bacia do Mediterrâneo, que é uma região em ebulição. Surge com frequência a necessidade de reagir de uma forma rápida e operacional e, se for necessário enviar navios das frotas do Norte, do Báltico ou do Mar Negro, isso pode demorar bastante tempo. Já quando os navios se encontram nessa área de forma permanente, as margens de manobra, políticas inclusivamente, são muito maiores. O segundo motivo são as razões políticas, mostrar a bandeira, ou seja as capacidades da Rússia. Isso é válido não só para os países do Oriente Médio, mas também para os Estados europeus.”
Além disso, os navios de guerra russos patrulham, já há vários anos, as zonas mais perigosas junto às costas africanas, protegendo dos piratas as rotas de navegação comercial, nomeadamente, junto à Somália. De acordo com Andrei Frolov, a esquadra do Mediterrâneo poderá funcionar como uma reserva para as missões de combate à pirataria nos Oceanos Pacífico e Índico.
O perito duvida, no entanto, que uma presença permanente da Marinha russa, em particular, no mar Mediterrâneo seja capaz de reduzir ou evitar situações de conflito. Os planos de Moscou para criar uma força naval na região não ameaçam, por enquanto, envolver a Rússia em qualquer conflito armado localizado, visto que a presença ou ausência de uma esquadra não irá influenciar de maneira nenhuma a tomada pelo Kremlin de decisões fundamentais.
Simultaneamente, considera Frolov, um destacamento de navios de guerra russos no Mar Mediterrâneo pode, sem dúvida, ser encarado como um elemento integrante dos esforços internacionais para o aumento da estabilidade na região.
Uma presença permanente de navios russos no Mediterrâneo irá ter elevados custos materiais, intelectuais e outros, refere o copresidente da Associação de Cientistas Políticos e Militares, Vasili Belozerov:
“Esses custos serão justificados se for evidente quais são os interesses do nosso país nessa região e que eles devem ser defendidos com o uso de uma força naval. Quanto aos porta-helicópteros Mistrale à sua inclusão nessa esquadra, há que considerar que estes são navios de desembarque. Se a Rússia planejar possíveis operações de desembarque, é possível que eles sejam necessários. De qualquer forma, a presença dessa esquadra na região não será barata e é necessário esclarecer com que finalidade o país e os contribuintes irão ter essa despesa.”
É do conhecimento geral a situação na Síria, onde, no porto de Tartus, está localizado o único ponto de apoio técnico e de abastecimento da Marinha russa no Mediterrâneo. O comando-geral russo não esconde que a formação desta força naval moderna no Mediterrâneo será inspirada na 5ª Esquadra da Marinha soviética. A ideia da sua criação em 1965 foi apresentada pelo então comandante da Marinha de Guerra da URSS, almirante Serguei Gorshkov.
Imediatamente antes da Guerra dos Seis Dias israelo-árabe de 1967, no Mediterrâneo estavam concentradas dezenas de navios de guerra de superfície, submarinos e navios de apoio soviéticos. Até essa altura, tinha sido desenvolvido o padrão de formação e de comando dessas esquadras: as quatro frotas soviéticas destacavam para a região três a quatro navios que aí formavam uma esquadra, recebendo esta a respetiva designação e número de ordem.
A base para a formação da 5ª Esquadra, criada a 14 de julho de 1967, foi a 14ª Esquadra Mista. A sua presença e as ações dos seus navios e destacamentos na monitorização da esquadra britânica e da 6ª Esquadra dos EUA não permitiram aos aliados participar na Guerra dos Seis Dias do lado de Israel.
Como recorda o capitão de mar-e-guerra e candidato a Doutor em Ciências Políticas Serguei Gorbachov, uma avaliação rigorosa do papel da 5ª Esquadra nos anos da Guerra Fria foi feita por um dos seus últimos comandantes, o almirante Yuri Sysuev: “Estando no epicentro das guerras e conflitos armados de 1967 e 1973 entre Israel e os países árabes, dos confrontos no Chipre em 1974 e no Líbano em 1982, e do uso da força militar pelos EUA contra a Líbia em 1986, os navios da esquadra foram um importante fator dissuasor para os planos e tendências de agressão”.
SNB

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